Hoje partilho convosco um miniconto…
A Weza adorava desenhar. Desenhava a toda hora e em qualquer sítio. Bastava encontrar algo que escrevesse (fosse lápis, caneta, carvão, pedra, ou o próprio dedo) e uma superfície receptiva (papel, areia, passeio, lama ou uma mesa empoeirada) que se punha a desenhar. Até desenhos no ar ela fazia! Concentrada, deixava os dedos serpentearem o ar a sua frente criando formas invisíveis, enquanto esperava que a mãe pagasse as compras. Quando estivesse a fazer os deveres, nas margens do caderno, entre dois pensamentos rabiscava formas abstractas que não sabia explicar o que eram. Retratavam apenas o que lhe ia por dentro no momento, o que não tinha palavras para explicar, para partilhar. O que, se ela não partilhasse de alguma forma, acabaria por morrer assim desconhecido dentro dela, como se nunca tivesse existido. Por vezes desenhava também rostos. Rostos alegres, rostos tristes, rostos perplexos, rostos maravilhados, rostos vexados, rostos reticentes, rostos surpresos. Uma variedade de expressões para as quais não tinha palavras. No fim, observava toda aquela obra realizada sem pensar, sem sentir, quase; e relutante voltava para os deveres com a sensação de estar mais leve.
A mãe dizia sempre:
Weza o quê que estás a fazer? Weza para com isso e vai mas é fazer o que te pedi. Weza, estás a gastar papel. Weza, as canetas custam dinheiro, não gastes a tinta a toa!
A professora perguntava:
Weza o quê que queres ser quando fores grande?
Quero ser pintora.
Pintora?! E o quê que vais comer querida?
Com o pai era assim:
Pai olha o desenho que eu fiz, não tá bonito?
E sem sequer levantar a cara do jornal para ver, o pai respondia distraidamente “hum hum”.
Às vezes dava-lhe vontade de desenhar e ela não tinha como, por estar no banho, por exemplo, ou já na cama com a luz apagada. Um dia, deu-lhe tanta vontade no banho que ela pegou no sabonete e fez uns rabiscos na parede. Quando terminou, olhou a sua obra e sorriu com satisfação. A mãe de Weza ao ver os rabiscos de sabão na sua linda parede, ficou tão zangada que saiu pela casa fora a procura do culpado. Quando a encontrou perguntou-lhe, com os olhos bem grandes e os cabelos no ar, de tanta raiva, se tinha sido ela. De tanto medo ela respondeu que não. Mas a mãe sabia que tinha sido ela porque ela era a única pessoa lá em casa que estava sempre a desenhar em todo sítio. Deu-lhe uma surra de muxarico, primeiro por ter sujado a parede, depois por ter mentido. Para ela aprender. E ela aprendeu. Nunca mais voltou a por lápis ao papel, nem carvão ao chão. Nunca mais os seus dedos voltaram a serpentear o ar.