Copenhagen Hair

becoming my true self, one day at a time…

O Sonho de Weza October 19, 2012

Filed under: Inspiration,Writing — Yema Ferreira @ 12:43 pm
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Hoje partilho convosco um miniconto…

 

A Weza adorava desenhar. Desenhava a toda hora e em qualquer sítio. Bastava encontrar algo que escrevesse (fosse lápis, caneta, carvão, pedra, ou o próprio dedo) e uma superfície receptiva (papel, areia, passeio, lama ou uma mesa empoeirada) que se punha a desenhar. Até desenhos no ar ela fazia! Concentrada, deixava os dedos serpentearem o ar a sua frente criando formas invisíveis, enquanto esperava que a mãe pagasse as compras. Quando estivesse a fazer os deveres, nas margens do caderno, entre dois pensamentos rabiscava formas abstractas que não sabia explicar o que eram. Retratavam apenas o que lhe ia por dentro no momento, o que não tinha palavras para explicar, para partilhar. O que, se ela não partilhasse de alguma forma, acabaria por morrer assim desconhecido dentro dela, como se nunca tivesse existido. Por vezes desenhava também rostos. Rostos alegres, rostos tristes, rostos perplexos, rostos maravilhados, rostos vexados, rostos reticentes, rostos surpresos. Uma variedade de expressões para as quais não tinha palavras. No fim, observava toda aquela obra realizada sem pensar, sem sentir, quase; e relutante voltava para os deveres com a sensação de estar mais leve.

 

A mãe dizia sempre:

Weza o quê que estás a fazer? Weza para com isso e vai mas é fazer o que te pedi. Weza, estás a gastar papel. Weza, as canetas custam dinheiro, não gastes a tinta a toa!

 

A professora perguntava:

Weza o quê que queres ser quando fores grande?
Quero ser pintora.
Pintora?! E o quê que vais comer querida?

 

Com o pai era assim:

Pai olha o desenho que eu fiz, não tá bonito?
E sem sequer levantar a cara do jornal para ver, o pai respondia distraidamente “hum hum”.

 

Às vezes dava-lhe vontade de desenhar e ela não tinha como, por estar no banho, por exemplo, ou já na cama com a luz apagada. Um dia, deu-lhe tanta vontade no banho que ela pegou no sabonete e fez uns rabiscos na parede. Quando terminou, olhou a sua obra e sorriu com satisfação. A mãe de Weza ao ver os rabiscos de sabão na sua linda parede, ficou tão zangada que saiu pela casa fora a procura do culpado. Quando a encontrou perguntou-lhe, com os olhos bem grandes e os cabelos no ar, de tanta raiva, se tinha sido ela. De tanto medo ela respondeu que não. Mas a mãe sabia que tinha sido ela porque ela era a única pessoa lá em casa que estava sempre a desenhar em todo sítio. Deu-lhe uma surra de muxarico, primeiro por ter sujado a parede, depois por ter mentido. Para ela aprender. E ela aprendeu. Nunca mais voltou a por lápis ao papel, nem carvão ao chão. Nunca mais os seus dedos voltaram a serpentear o ar.

 

No, You Can’t Touch My Hair! October 16, 2012

Filed under: Copenhagen,Hair — Yema Ferreira @ 11:12 pm
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Writing yesterday’s post made me think of an old piece I wrote way back in 2010. I wrote it in the middle of the night as an opening to my novel but ended up not using it. It kind of  has the feel of a blog post and, in it, I express very different feelings than in the last post. So I decided to share it today. Here it goes:

 

I am not a racist or a sexist, but there is one thing I don’t want to hear anybody’s opinion on but from a black woman like myself. That’s my hair. Zero tolerance. Nobody understands unless they’re in the same predicament and to try to explain it almost trivializes it. So I will not explain, I am just going to say that having kinky hair in Copenhagen makes things even more challenging than they already are. And let me make it clear – it’s not a matter of love or hate. It’s more a question of uniqueness. And uniqueness, we all know, may be beautiful but it never made anybody’s life easy.

 

It’s irritating when white people say “oh, new hair!”. No! I’ve had these braids for 3months!!! “oh, did you do something to it?” No, I just pulled it up in a pony tail, which I do, like, every other day! “oh, ok.” Next day I let my hair down, “oh, new hair!” and we have to have the same conversation all over again. Same happens when I wash my hair, on a sunny day after 3 days of rain or when I use a different color scrunchy to put it up. I cannot tell you how that conversation tries my nerves. I’d rather not engage in it at all but feel I have to out of politeness. And forget about “can I touch it?” Grrr. 

 

Gee, I sounded pretty angry there! Interesting I used the word predicament too. I am glad I have found peace.

 

Yes, You May Touch My Hair October 15, 2012

Filed under: Hair — Yema Ferreira @ 10:32 pm
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Like so many black women in the natural hair movement, I used to hate the can I touch your hair? request. It irked me to no end. I don’t remember ever saying no, but I remember sizzling up inside. I remember an acute feeling of discomfort. Why did they want to touch my hair? couldn’t they just ignore it? pretend as if it wasn’t there? why did they have to make comments about  my hair, to enquire – how do you do it? and how long does it take? and how long can you keep it? and did you get a haircut? Why so much interest in my hair when I was trying to keep it in the down low, to control and tame it, make it inconspicuous?

 

That’s the thing with our hair: it’s very conspicuous. You can’t walk in a room with an afro and go unnoticed. No undercover operation can be successful with our kind of hair unless it is nicely braided into submission or tamed in some other way.  The hair is wild and alive and wants to be seen and noticed, be a part of things. It’s like a rebellious child who refuses to be controlled, refuses to be taught what her parents believe are good manners, refuses for her spirit to be broken into submission. I like that in a child. Did not like it in my hair. It was the thing about being noticed all the time that bothered me, not so much the hair itself. I always kind of liked the hair. I just wished others would treat it as just that: hair.

 

But our hair is no ordinary thing, it can’t just sit there quietly, legs crossed, proper. I’ve accepted that now. These days I say thank you when I’m praised, hmm when criticized and gladly answer questions when asked. I’ve noticed that now that I’ve accepted my hair as it is, it doesn’t bother me anymore when people ask if they can touch it. Now that I’ve made my peace with it, it no longer bothers me when someone asks me to touch my hair. I remember being asked often when I was younger and traveling, and it didn’t bother me then. Why did it become a problem later? I realize now that that animosity was self-hate. Because I was unhappy and frustrated with my own hair, because I felt insecure about it, I projected that onto others. And I’m not saying anything about anybody else here, I’m speaking about my own experience with this issue. It doesn’t mean that it’s the same for everyone.

 

Book Update III October 12, 2012

Filed under: Hair,The book,Writing — Yema Ferreira @ 8:51 am
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As part of the research for my book, I read Nella Larsen’s novel Quicksand. She was a Harlem Renaissance writer with links to Denmark. I wanted to read it because it is another account of a black woman’s experience of living in Denmark, albeit in a different time, and I wanted to see her take on it. I enjoyed every minute of the book. It’s great writing.

 

Though I was not looking, I was delighted to find a reference to hair. I couldn’t not share!

 

“Heaven forbid”, answered Helga fervently, “that I should ever again want work in the South! I hate it.” And fell silent, wondering for the hundredth time just what form of vanity it was that had induced an intelligent girl like   Margaret Creighton to turn what was probably nice live crinkly hair, perfectly suited to her smooth dark skin and agreeable round features, into a dead straight, greasy, ugly mass.”

 

This was written in the 1920’s! is that not cool?!

 

Hygge October 11, 2012

Filed under: Copenhagen,Motherhood — Yema Ferreira @ 10:18 am
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Chegou aquela altura do ano em que me começo a perguntar como vim para aqui parar! O vento já se levantou, está a ganhar mais força a cada dia que passa e a tornar-se glacial. O sol nasce cada vez mais tarde e põe-se mais cedo.

 

O pior dessa estação para mim é pedalar contra o vento. Quando estou na minha bicicleta individual, que é alta e esbelta com um cestinho a frente, o problema não é tão agudo. Mas para deixar os miúdos na creche e apanhá-los, uso a bicicleta familiar, com uma cabine a frente que oferece mais resistência ao vento. É como tentar empurrar uma parede contra um vento de 20 km por hora. E lembrem-se que o peso de duas crianças com os seus pertences dentro da cabine acrescenta resistência. O exercício requer fôlego. Com o frio que está a fazer, fico toda gelada cá fora e a transpirar debaixo do casaco. O meu único consolo é saber que estou a queimar calorias ao mesmo tempo.

 

Mas não é tudo vida dura. O outono Dinamarquês é curto mas não deixa de ter o seu encanto. É a altura do ano em que a vida passa de fora, para dentro de casa. Em que a dieta passa de saladas e grelhados para sopas e guisados. É altura de hygge, palavra Dinamarquesa que significa aconchego, mas que, segundo os Dinamarqueses, abrange muito mais. É toda uma cultura. Eu diria não tanto que é mais do que aconchego, mas que eles têm uma forma particular de viver o aconchego. E, claro, as duras condições climáticas exigem hygge e tornam-lhe quase que numa instituição.

 

Hygge é quando está escuro e frio lá fora (a maior parte do tempo!) e estamos a comer uma sopa quentinha à luz de velas. É luz fraquinha. É estarmos os quatro na cama apesar de quase não cabermos todos. É um chazinho, café ou chocolate quente, bem quentinho, acompanhado de uma fatia de bolo a sair do forno, numa tarde cinzenta, ao som da fúria do vento contra as janelas. É acordar num domingo de manhã e sentar-me no sofá com a minha filha, as duas bem coladinhas, de baixo de um edredom a ver bonecos na televisão. Esse hygge dura o inverno todo, mas é no outono que entra em vigor, trazendo com ele uma certa nostalgia, de todos os invernos passados de hygge.

 

Hygge é uma forma genial de sobreviver os longos invernos Dinamarqueses.

 

Piece of 5 year-old Wisdom October 10, 2012

Filed under: Inspiration,Motherhood — Yema Ferreira @ 9:57 am
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My daughter and I are in the middle of our usual morning argument – over washing up, getting dressed, eating breakfast, brushing teeth, etc. Basically over every step in the process of getting ready and out of the house in the morning. Then we get to the point where I feel it’s time to be the grown up and say: argument over, don’t want to hear another word, am waiting for you in the bathroom. or at the table. Or outside the door. All depending on where in the process we are. I leave. To prove to me that I can’t tell her what to do, she strings a series of self-emancipatory pronouncements, like, “no” (her favorite), or “see, I said another wo-ord”, or “I’m not your friend and I’m not saying sorry. Ever!” – all of which I ignore. When she’s had enough of that, she changes tactics. “I know we’ll be friends again soon, you know why?” the tone is still daring. No reply. “Because when you argue you always make up. You have to. You can’t be upset forever”. She pauses, looking thoughtful, then proceeds. “And you know how you become friends again?” She’s kind of already won me over with the last statement, so I say “how?” though I’m still frowning. “You close your eyes, think about love and forget everything that happened”. Now I’m so proud of her and warmed up inside, I smile and even before I close my eyes, I’ve already forgotten all the harsh words that were said before.

 

Maternidade e Leitura October 9, 2012

Filed under: Motherhood — Yema Ferreira @ 2:08 pm
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Eu adoro acumular livros na minha estante antes de os ler. Olhar para eles frequentemente e deleitar-me na ansiedade de começar uma maratona de leitura logo que tenha acumulado um bom número.

 

Nos últimos meses da minha gravidez comecei a juntar livros para ler durante a minha licença de parto, um período que eu, apesar de ser mãe pela segunda vez, imaginei que viesse a ser repleto de sossego, com uma criança que dormisse regular e previsivelmente não só a noite, mas também de dia. Fui comprando e colocando os livros na prateleira, organizando-os de acordo com o tamanho – do mais alto ao mais curto, da esquerda para direita. Tentei organiza-los também por origem do autor e género, mas isso atrapalhou o efeito visual, então fiquei mesmo só pelo tamanho (às vezes as aparências importam sim mais do que a substância!). Do sofá vejo a estante sem dificuldade, então não era problema nenhum ficar a observa-los alguns instantes, várias vezes por dia, admirando a vasta gama de cores e tipografias. Questionando-me sobre se a ideia que tinha do conteúdo de cada um viria a desiludir, surpreender ou simplesmente confirmar-se. Imaginava-me deitada no sofá, com o bebe ao lado adormecido na alcofa, a desfolhar avidamente até terminar um, descansar quietinha come ele ao peito uns instantes para saborear o momento de despedida antes de pegar no próximo.

 

Duas prateleiras eu enchi. Uns 30 livros. Agora perguntem-me quantos consegui ler até agora? Um. Um único livro consegui ler. Mas entendi uma coisa: eu não faço filhos sossegados. Pena que já não vá fazer mais para usar a lição que aprendi para a próxima.

 

No primeiro ano com a minha primeira filha passei a ler somente novelas e contos para puder terminar, pois os romances que comecei a ler não consegui a terminar. Um conto dava tempo de ler por inteiro durante uma soneca dela. Mas com este, tinha a certeza de que, como a primeira tinha sido exigente em termos de tempo e energia, ele seria mais calmo e relaxado. Seria justo, não? Pois, parece que não. Ele resolveu que não tinha nada a ver com o que tinha vindo antes e que também tinha as suas necessidades. Não deixa de ter razão. A única coisa que tenho conseguido ler são artigos em blogs e revistas.

 

Mas agora que ele está bem crescido (acreditam que faz um ano já dentro de um mês?!), independente e mais previsível, começo a sinter mais espaço para atacar as minhas prateleiras. Hummm!

 

 
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